Levantamento do EM mostra setores em que há procura por trabalhadores no país. Área hospitalar aparece com destaque

Ano-novo, vida nova, emprego novo. Num país em que mais de 12 milhões de pessoas estão sem trabalho, é natural que o desejo de ter a carteira assinada esteja mais aflorado do que nunca. Apesar desse ambiente hostil, com esforço redobrado e coragem para recomeçar, mesmo que em outra cidade, é possível encontrar boas oportunidades. Levantamento realizado pelo Estado de Minas, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostra que a recessão não tem impedido a abertura de vagas, sobretudo na área de saúde. Praticamente, em todos os estados e no Distrito Federal há postos abertos nesse e em vários outros ramos (veja mapa).

No entender dos especialistas, o setor de saúde será um dos que mais empregará nos próximos anos. Portanto, aqueles que estão se sentindo desmotivados devem aproveitar a virada de ano para renovar o combustível da esperança. Jogue os preconceitos fora, faça cursos técnicos e não se envergonhe de ter de recomeçar uma nova carreira, mesmo que ganhando menos. Mais à frente, isso pode resultar em rendimentos maiores e na descoberta de aptidões que estavam escondidas pelo comodismo. Há vagas no varejo, na agricultura e mesmo na indústria, cuja produção encolhe há quatro anos seguidos.

A ordem é não desaminar diante dos prognósticos ruins para a economia. Há quem aposte que o desemprego ainda saltará dos atuais 11,9% para 13% ao longo de 2017. “A atual taxa ainda deve crescer mais um ponto percentual antes de ingressar em um quadro de estabilização e, depois, começar a cair”, diz José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimento e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Resistência Isso não quer dizer que todas as portas estão fechadas. Sempre há alguém em busca de profissionais qualificados e com disposição para aprender. Quem quer uma colocação no mercado de trabalho, além de otimismo, necessita saber onde há emprego. Em um quadro como o atual, os setores que mais resistem são os prioritários, como o de saúde, exemplifica Camargo. Num país que está envelhecendo rápido, como o Brasil, a demanda por profissionais nessa área será cada vez maior. De porteiro de hospital ao mais especializado dos médicos.

O mercado está tão aquecido para os profissionais de saúde que a agenda do cardiologista Paulo Juvenal, 68 anos, está sempre lotada. Nem mesmo o fato de milhares de pessoas terem perdido o convênio médico, por causa do desemprego, reduziu o número de pacientes. A justificativa: as pessoas abrem mão de tudo, menos de cuidarem da saúde. Somente em casos extremos deixam de se consultarem ou de seguirem um tratamento médico.

Por precaução, contudo, Juvenal preferiu não reajustar o valor das consultas. A decisão, tomada no começo do ano passado, será repetida em 2017. Com isso, ele acredita que manterá a clientela intacta. “Não dá para brincar com a crise”, afirma. Para o médico, a tendência do mercado de saúde é de crescimento contínuo, o que permitirá que mais profissionais sejam absorvidos. A prioridade, porém, recairá sobre aqueles que estivem mais bem preparados para ocupar os postos abertos.
“Independentemente da recessão e do desemprego, as pessoas continuam tendo necessidade de atendimento médico e de medicamentos”, ressalta José Márcio Camargo.

Sua posição é reforçada pelo Caged. De outubro de 2015 a outubro de 2016, as atividades ligadas ao setor de saúde mantiveram saldo de empregos positivo em 14 das 27 unidades da Federação. Ou seja, foram abertas mais vagas do que fechadas.

Assim como a saúde, a área de educação também costuma abrir vagas independentemente da crise. “As formas de ensino podem se alterar, pois as pessoas continuam atrás de mais capacitação. Num quadro de recessão, é preciso buscar mais conhecimento para enfrentar a concorrência no mercado”, ressalta o economista da Opus Investimentos.

Para Carlos Alberto Ramos, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Brasília (UnB), comércio e serviços, mesmo sentindo hoje a força da recessão, continuarão a ser grandes empregadores. “Esses segmentos são sempre mais resistentes, assim como profissões ligadas aos setores de informática e de dados, como estatística, matemática e engenharia de rede. Mesmo com a crise, a procura por especialistas nessas áreas continua grande”, frisa.

No campo e na cidade

Brasília – O campo será fértil para a geração de empregos nos próximos anos, avalia do professor Carlos Alberto Ramos, a Universidade de Brasília (UnB), sobretudo no caso da agricultura voltada para a exportação. Ele ressalta que podem ser vagas não tão qualificadas, mas, em tempos de recessão, é uma saída e tanto. “A agropecuária ligada às exportações tem impacto positivo na economia e absorve trabalhadores em colheitas como as de café, algodão, soja, cana-de-açúcar, milho”, diz.

Economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito aposta que, quando os investimentos produtivos retomarem, os empregos voltarão. Não será um processo rápido, uma vez que muitas empresas estão operando com elevada margem de ociosidade. Há, portanto, um tempo para se preparar, melhorar a qualificação. Quando voltarem a contratar com força, as companhias tenderão a escolher os melhores profissionais.

Aqueles que optarem pela formação técnica poderão sair na frente. Há, pelo Brasil, muitas vagas para pessoas com conhecimento específico. As empresas que fabricam geradores, transformadores e motores elétricos estão a cata de profissionais. Também é possível observar, sobretudo em estados do Norte e do Nordeste, demanda por profissionais para obras públicas, como construção de redes de energia e de rodovias, e para mineração.

“Qualificação é tudo, sobretudo em um mercado em contração”, afirma Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, a retomada do emprego será mais visível a partir do segundo semestre de 2017.

Realidade atual

A situação do mercado de trabalho realmente é preocupante, diz Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Baseado nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), ele avalia que “é difícil identificar onde está tendo crescimento”. Das 675 atividades elencadas no Caged, apenas 147 estão contratando, ou seja 22% do total de atividades. A realidade atual é muito diferente da observada em 2010, quando 623 setores geravam vagas, o que correspondia a 92% do total.

As estatísticas do Caged apontam para alguns oásis nesta terra inóspita do desemprego. É o caso de Roraima, única unidade da Federação que, nos últimos meses, criou mais postos de trabalho do que fechou. O segmento de serviços médicos, odontológicos e veterinários apresenta saldo positivo de 42,1 mil postos de trabalho. A estatística reafirma a avaliação dos economistas que colocam o setor de saúde como um dos poucos que mantém a demanda.

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