Doar medula é fácil e pode salvar uma vida.

Muita gente – e quando eu falo muita me refiro à milhões –, ainda não doou sua medula, ou melhor não se inscreveu no cadastro nacional dos doadores de medula de seu país (que fica linkado no cadastro nacional).

São vários os motivos para não terem feito isso: desconhecimento da facilidade do cadastro; pensam que se não podem doar sangue, consequentemente não podem ser doadores de medula; desconhecimento de como e onde fazer o cadastro; ou simplesmente por não se importar.

Felipe é um doador de medula ossea

Felipe é um doador de medula ossea

O último motivo pode ser cruel quando alguém lê, mas é a mais pura verdade. Vou explicar. Não significa que a pessoa não se importe de alguém ter leucemia, mas quando são pessoas distantes, desconhecidas, não nos tocamos de como é importante fazermos parte do problema. Foi assim comigo e com uma prima querida.

Há cerca de três anos, o filhinho de uma colega de trabalho – que nem conhecia pessoalmente – teve leucemia. Foi uma comoção na empresa, e conseguimos que o setor de coleta de cadastro fosse ao jornal. Fizemos uma mobilização e várias pessoas se cadastraram.

Eu poderia ter me cadastrado há anos, porém nunca tinha me dado ao pequeno trabalho de ir ao Hemocentro para isso. Simplesmente porque, graças a Deus, ninguém perto de mim tinha precisado. Quando tive a oportunidade não pensei duas vezes. E a compatibilidade é uma coisa tão rara, que em mais de 200 pessoas do jornal, ninguém foi compatível com o pequeno Davi. Porém, ele conseguiu o transplante, mesmo assim não resistiu, pois já estava muito debilitado.

Veja como é simples fazer o cadastro:

Preenchemos um papel com nossos dados, apresentando um documento de identidade, tiramos 5ml de sangue para fazer o exame de HLA e pronto. Estamos no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME), que é ligado ao Instituto Nacional do Câncer (Inca) e subordinado ao Ministério da Saúde. Para entrar no REDOME  tem que ter entre 18 e 55 anos e só não pode ter doenças infecciosas ou hematológicas.

Quando alguém precisar de uma medula, vão pesquisar no cadastro quem tem o tipo compatível e ligam para a pessoa, que será chamada para mais exames. Você pode nunca ser chamado – a doação pode ser até 65 anos –, como poderá ser chamado a qualquer momento, e salvar uma vida.

Com a minha prima foi bem parecido. Uma grande amiga dela e da família, Adhriane Carvalho Leite Guimarães foi diagnosticada com leucemia e está precisando de transplante de medula óssea. Quando ela ficou sabendo foi tocada, não só ela, mas a família toda e muitos já foram se cadastrar e estão em uma campanha de sensibilização.

É importante dizer também como é a cirurgia no ato da doação, porque muita gente tem medo disso. O melhor a fazer é publicar o relato de um primo, o Felipe, que foi doador.

“Cerca três meses depois do cadastro no REDOME, recebi uma ligação dizendo que havia uma pessoa compatível comigo, precisando do transplante e perguntaram se estava disposto a salvar a vida de alguém. Nesse momento, muitas coisas passaram na minha cabeça, a começar pela perda ainda tão recente naquela época, de um grande amigo devido a leucemia.

Não tive a menor dúvida do que deveria ser feito em nenhum momento. Posso afirmar que a partir daí uma sensação muito boa, algo inexplicável toma conta da gente.

Uns 15 dias depois do telefonema, fui ao Rio de Janeiro, no INCA para exames complementares e confirmação da compatibilidade entre doador e receptor. Esses exames complementares, assim como o transplante, podem ser feitos em diversas localidades do Brasil. Na época fui informado que há um número limite mensal de procedimentos de transplantes a serem feitos em cada centro, e que esse limite já havia esgotado no Hospital das Clínicas em BH. Por isso, o procedimento seria realizado no INCA do RJ.

Acho importante mencionar quão organizados o pessoal do REDOME é em tudo que envolve esse processo. Digo isto pois apesar de termos o hábito de reclamar sempre do governo, etc, posso dizer que isto é algo que funciona e funciona muito bem no Brasil. Neste primeiro momento da realização dos exames complementares no RJ, o administrativo do REDOME me perguntou sobre todos os gastos que eu teria com a viagem, se iria com acompanhante (nesse momento era opcional), reservaram hotel próximo ao INCA, enviaram as passagens aéreas e depositaram, antecipadamente, valor que cobriria todos os gastos com alimentação e transporte.

Tive que chegar na véspera.  No dia dos exames a gente começa a entender na pratica como é importante que tenhamos essa atitude, pois você se depara com a quantidade de famílias necessitadas de ajuda, crianças passando pelos corredores do INCA, todas felizes, fortes e esperançosas de que o doador compatível vai aparecer. Não se vê e nem sente dor ou sofrimento no semblante dos pacientes internados, apenas esperança e confiança no olhar de cada um!

São vários exames como eletrocardiograma, radiografia do tórax, exames de sangue, e muita, muita conversa com uma equipe médica sobre sua vida, seu histórico médico, suas intenções e motivações que o levaram a doar. Todos os médicos muito acolhedores e felizes pelo gesto. Ao final do dia fui informado que seria necessário coletar cerca de 500 ml do meu sangue – como se fosse um procedimento de doação de sangue. Eles guardariam esse sangue para uma transfusão chamada de transfusão autóloga de sangue em caso de necessidade no dia do transplante.

Nesse momento, a chefe da equipe médica me explicou que a quantidade de material retirado da medula do doador varia de acordo com o peso do receptor e do doador e me informou que como o receptor, no meu caso, era um adulto, a quantidade de material necessária a retirar da minha medula seria bem próxima do limite: 2 litros. Por isso, poderia ser necessária uma transfusão. Para eliminar qualquer risco, a transfusão seria feita com meu próprio sangue ali retirado.
Após análise de todos os exames, entrariam em contato e, em caso positivo, seria agendada a data do transplante. Eu poderia voltar atrás na decisão de doar a qualquer momento, porém, há todo um preparo do receptor para receber o transplante e que tal preparo fragiliza muito o paciente. Por isto, após eu confirmar minha intenção de doar, seria definitivo.

Retornei a BH no mesmo dia. Alguns dias depois me ligaram informando que havia compatibilidade e se estivesse disposto a seguir em frente, o transplante seria em 15 dias. A minha mãe foi comigo (era obrigatório um acompanhante). É necessário ir um dia antes do transplante e você recebe alta no dia seguinte do procedimento que é muito tranquilo. E a energia que você sente é algo inexplicável. Faz um bem enorme. Algo que nunca senti na vida!

O anestesista conversou comigo (anestesia é peridural), e me deixou bem tranquilo. Se há algum medo, pequeno ou grande, a sensação de realização, de gratidão, de felicidade que tomou conta de mim, é muito, muito maior do que qualquer medo!
Quando entrei no bloco cirúrgico, me deparei com uma equipe médica bem grande (umas 15 pessoas), todos num astral fantástico. Fui colocado de lado para a anestesia,e depois de bruços. No início do procedimento eu adormeci e acordei algumas vezes durante. Não senti nenhuma dor ou incômodo durante o procedimento. Os médicos conversavam comigo quando estava acordado e me tranquilizavam com palavras de motivação. Foi necessária a transfusão autóloga

Ao final tiraram uma foto comigo segurando a “bolsa do material coletado. O pós procedimento é tranquilo. Fiquei um pouco sonolento e fraco, mas nada demais. Acordei com apetite, sem dor ou incômodo. É colocado um curativo no local da punção (região lombar) que é retirado no dia seguinte do transplante, antes da alta.

Depois do procedimento tem total acompanhamento de médicos e enfermeiros, exames clínicos e muita conversa. Fui medicado para prevenir dores. Recebi alta no dia seguinte. Tive que tomar alguns medicamentos por 30 dias, após a doação (ferro e cálcio) para reposição e evitar quadro de anemia. Fiz exames de sangue logo após o procedimento e 30 dias depois para assegurar que estava tudo bem. E nada foi alterado. Existe um certo incomodo região lombar semelhante a dor muscular durante uns 15 a 20 dias após o transplante, mas nada que te impossibilite de levar uma vida normal.

Recebi ligações do REDOME nos dias seguintes ao transplante para saber como estava me sentindo, e, em caso de necessidade, agendar consulta médico de BH. Não foi necessário. Informaram que a medula “pegou” no paciente. Fiquei muito feliz com essa notícia. E agora estou aguardando o dia de conhecer, quem sabe, a pessoa que ajudei.”

Para que quer se cadastrar como doador, em BH o Hemocentro fica na Alameda Ezequiel Dias, 321, Bairro Santa Efigênia, das 7h às 15h, de segunda a sexta-feira.

Relacionados

Comente sobre esse assunto:

Comentários